Dona Avelina (no alto, sentada) ensinou à filha Tânia (direita) e à neta Ana Cássia (esquerda) o ofício da baiana do acarajé. O alimento, originalmente ligado ao candomblé, é um dos mais populares do país (Fotos: Janine Moraes/Ascom MinC) |
Turbante, bata, anágua engomada, saia armada bem arredondada, com
fitas, rendas e o que mais tiver direito. Tudo em um branco luzente,
cerimonioso. É assim que a baiana de acarajé costuma cumprir um ofício
que vai além de alimentar e satisfazer o paladar. A preparação da comida
(seja para oferta religiosa ou venda), a composição da indumentária e a
arrumação do tabuleiro e do ponto integram um ritual que rendeu ao
ofício das baianas o título de bem cultural de natureza imaterial,
inscrito no Livro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan), instituição vinculada ao Ministério da
Cultura.
A relevância da tradição ancestral
mantida por essas mulheres ainda definiu presença no calendário das
datas comemorativas nacionais: a Lei 12.206/2010 instituiu o 25 de
novembro como o Dia Nacional da Baiana de Acarajé. O reconhecimento
institucional se alia à reverência que as baianas merecem receber nos
terreiros e nas ruas. "O reconhecimento é a gente chegar no ponto, como
ontem, quando eu estava trabalhando, e uma pessoa dizer: baiana, seu
acarajé é uma delícia, que tabuleiro bonito!", conta Ana Cássia Pereira
Nery, filha de Tânia, neta de Avelina, herdeira desse fazer matriarcal
que revela a sociedade, a cultura e a religiosidade do povo baiano.
Ainda no período colonial, mulheres – escravas ou libertas – preparavam
acarajé e outras comidas e, à noite, com cestos ou tabuleiros na
cabeça, saíam a vendê-las nas ruas de Salvador ou a oferecê-las aos
santos e fiéis nas festas relacionadas ao candomblé. Na religião de
matriz africana, a chamada obrigação do acarajé, ou seja, a autorização
para produção e venda pública por mulheres iniciadas nos rituais
tradicionais do candomblé, tinha o objetivo de angariar recursos para
"fazer o santo", isto é, cobrir os gastos necessários às obrigações de
iniciação.
Atualmente, a venda do acarajé não
está ligada exclusivamente à tradição religiosa: ampliou seu espaço nas
ruas de Salvador e em outras cidades brasileiras, tornando-se meio de
vida para parte da população local. "Eu tive 11 filhos, dei um duro,
criei os meus filhos tudo, sem pai, e está todo mundo criado hoje. (...)
Eu devo muito, abaixo de Deus, ao acarajé. Foi assim que eu criei os
meus filhos", afirma a aposentada Avelina Santos.
Filha de dona Avelina e atuante em um dos pontos mais reconhecidos de
Salvador, Tânia Barbara Nery reforça que a baiana é normalmente "pai e
mãe de família", chegando a arcar com um percentual que varia de 80 a
100% das contas de casa, mesmo quando é casada. Apesar dessa realidade,
Tânia diz que não atua-se nesse ofício visando unicamente os lucros: "A
baiana patrimônio é essa também. Ela não visa os lucros, ela faz com
amor, com carinho, se dedica única e exclusivamente a isso aí, a esse
ofício; ela não quer ganhar o cliente só pelo lucro, ela quer que o
cliente coma, vá e volte".
FONTE:
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura
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